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Caderno de críticas

por Manoel Moacir

A queda das imagens em Playback

Por Manoel em Artes Cênicas

16 de julho de 2017

Entrar no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, da UFC, com sua simples e misturada arquitetura, paradoxal, com os resquícios de reformas anteriores, nos conta sua história dividida em pelo menos duas. Uma que data de sua inauguração, quando podemos imaginar que se voltava ao realismo tido como natural desse palco, italiano. E outra, que amplia suas possibilidades a outras lógicas espetaculares, que têm sido exploradas por jovens grupos e diretores, como se dá no trabalho do Teatro Suspenso.

Performer: Devon Zoal
Foto: Toni Benvenuti

O que vemos ali, na peça Playback, são recriações, citações de pedaços de notícias (sons e imagens) e programas de diversos suportes midiáticos, e uma utilização desse modelo de palco italiano para falar das virtualidades e suas influências nas nossas relações, algo assumido no postal-programa-manifesto que recebemos. A condição nos é marcada desde o que se apresenta na divulgação, ou se projeta durante o espetáculo, como subtítulo: “Quem são os sujeitos dos discursos que cruzam nossas bocas?”

Gabriel Matos, Devon Zoal e Toni Benvenuti atuam como marionetes de um estranho freak show, que escarnece dessas outras grandes formas, em meio a projeções e janelas que não param de surgir, entre movimentos dos performers, suas dublagens e posições no espaço, sempre relacionadas ao ritmo do material audiovisual. Nessa lógica de atenção/assimilação do dispositivo tecnológico, somos jogados entre a adesão e a suspensão da crença no que fazem, e no como agem.

Sem a estabilidade das sincronias entre as vozes dos áudios e os corpos, o que tanto nos prenderia no formato italiano, o olhar pode vacilar, e em sua queda, ver-se exigindo o aspecto espetacular das telas às quais está de algum modo preso. Nesse ponto, a peça parece se propor como decalque, ou melhor provocação, sobre a própria ideia de “montar” e “mostrar” uma peça.

Isso fica mais claro num momento em que o palco ganha fala e “fala” sobre si mesmo, sem aqueles que antes cruzaram sua boca, como um fantasma do signo teatro, o que ali me pareceu abrir uma outra via, outras possibilidades dessa dramaturgia dos espaços, que tanto se interroga sobre si mesma.

Afinal, o palco, italiano e do teatro, é ainda e sempre um lugar da diferença em relação ao que se apresenta como grande mídia, montado e mostrado em Playback.

CONFIRA EM CARTAZ

Playback: Quem são os sujeitos dos discursos que cruzam nossas bocas?
Datas: 15, 22 e 29 / Julho (sábados) e 28 /Julho (sexta-feira)
Horário: 19:00
Local: Teatro Universitário Paschoal de Carlos Magno
Endereço: Av. da Universidade, 2210, Benfica
Preços: R$ 5,00 / R$ 10,00

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A queda das imagens em Playback

Por Manoel em Artes Cênicas

16 de julho de 2017

Entrar no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, da UFC, com sua simples e misturada arquitetura, paradoxal, com os resquícios de reformas anteriores, nos conta sua história dividida em pelo menos duas. Uma que data de sua inauguração, quando podemos imaginar que se voltava ao realismo tido como natural desse palco, italiano. E outra, que amplia suas possibilidades a outras lógicas espetaculares, que têm sido exploradas por jovens grupos e diretores, como se dá no trabalho do Teatro Suspenso.

Performer: Devon Zoal
Foto: Toni Benvenuti

O que vemos ali, na peça Playback, são recriações, citações de pedaços de notícias (sons e imagens) e programas de diversos suportes midiáticos, e uma utilização desse modelo de palco italiano para falar das virtualidades e suas influências nas nossas relações, algo assumido no postal-programa-manifesto que recebemos. A condição nos é marcada desde o que se apresenta na divulgação, ou se projeta durante o espetáculo, como subtítulo: “Quem são os sujeitos dos discursos que cruzam nossas bocas?”

Gabriel Matos, Devon Zoal e Toni Benvenuti atuam como marionetes de um estranho freak show, que escarnece dessas outras grandes formas, em meio a projeções e janelas que não param de surgir, entre movimentos dos performers, suas dublagens e posições no espaço, sempre relacionadas ao ritmo do material audiovisual. Nessa lógica de atenção/assimilação do dispositivo tecnológico, somos jogados entre a adesão e a suspensão da crença no que fazem, e no como agem.

Sem a estabilidade das sincronias entre as vozes dos áudios e os corpos, o que tanto nos prenderia no formato italiano, o olhar pode vacilar, e em sua queda, ver-se exigindo o aspecto espetacular das telas às quais está de algum modo preso. Nesse ponto, a peça parece se propor como decalque, ou melhor provocação, sobre a própria ideia de “montar” e “mostrar” uma peça.

Isso fica mais claro num momento em que o palco ganha fala e “fala” sobre si mesmo, sem aqueles que antes cruzaram sua boca, como um fantasma do signo teatro, o que ali me pareceu abrir uma outra via, outras possibilidades dessa dramaturgia dos espaços, que tanto se interroga sobre si mesma.

Afinal, o palco, italiano e do teatro, é ainda e sempre um lugar da diferença em relação ao que se apresenta como grande mídia, montado e mostrado em Playback.

CONFIRA EM CARTAZ

Playback: Quem são os sujeitos dos discursos que cruzam nossas bocas?
Datas: 15, 22 e 29 / Julho (sábados) e 28 /Julho (sexta-feira)
Horário: 19:00
Local: Teatro Universitário Paschoal de Carlos Magno
Endereço: Av. da Universidade, 2210, Benfica
Preços: R$ 5,00 / R$ 10,00