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Caderno de críticas

por Manoel Moacir

Enquanto o dia não vem

Por Manoel em Artes Cênicas

11 de maio de 2017

Em “Avental todo sujo de ovo”, do Grupo Ninho de Teatro (Crato/CE) revisitamos a história de Iracema, revemos alguns dos traços de uma família do sertão que parece procurar conviver com a dor da falta do filho, Moacir, que foi tentar a vida no sudeste. Até que ele acaba voltando um dia, como Indienne Du Bois, uma travesti e ex-prostituta, que imita Clara Nunes em casas noturnas. Só pra não esquecermos, o Ceará é um dos estados mais homofóbicos do Brasil, país que mais mata travestis no mundo. Vimos este ano as mortes de Hérica, que foi jogada de um viaduto, e Dandara, cuja morte foi filmada e assistida, em plena luz do dia, não só pelos vizinhos mas por milhares.

Com tudo isso, o grupo – ao levar à cena este texto de Marcos Barbosa – faz um enfrentamento a esse cenário tão terrível, num processo iniciado por volta de dez anos atrás, numa parceria entre os atores e o diretor, Jânio Tavares. O resultado foi essa espécie de ritual que nos leva a uma realidade cênica em que os elementos (poucos) da cena são utilizados para pintar o ocre, a dor velada e mal disfarçada de um pai, de uma mãe, a muda aceitação ao cotidiano que os separou e às regras sociais que impõem essa mudez devastadora das relações familiares, como a deles, que precisarão refundar seu próprio chão, arar novamente sua própria terra para voltar a ser fértil.

Alguns dias após ver esse trabalho, pensei que sendo já longevo, tanto não deixa de expor a continuidade de nossa ferida como também se coloca no centro de um debate que o teatro do Ceará tem feito em todas as peças do Coletivo As Travestidas, em “Mão na face” do Bagaceira, “Final de Tarde” do Teatro de Caretas, “Orlando” do Expressões Humanas, “Caio e Léo”, “Histórias compartilhadas” e “Comer, querer, ver” do Outro Grupo, para ficarmos apenas em alguns exemplos recentes e realizados em Fortaleza.

Aqui se trata de reconhecer uma urgência que o teatro tem procurado expor, se trata de lutar por visibilidade também, mas nesse caso do Avental, de mostrar os pontos de tensão entre a moral familiar e a social, e também criar dessa tensão a possibilidade nos entrevermos como algozes e vítimas a um só tempo. A peça expõe as chagas abertas, não as resolve, a mãe que tanto quis saber do filho, filha, se mostra avessa à sua presença, a fim de protegê-la, talvez. O pai, de quem se poderia esperar o comportamento mais duro, o machismo mais conservador, balbucia o nome de Moacir, com um afeto que parece não ter encontrado outras palavras que não o próprio nome da cria perdida. Mas ele virou ela, e sua presença tem peso, contestação e muita lucidez, não se deixaria rebaixar por vizinhos, a voz continuaria soando anasalada, rouca e feminina. Uma pedra em muitos sapatos…

Também me chamo Moacir, trago esse nome indígena, junto a outro, português, e me revejo nessas cenas, também senti a dor de uma desconexão com o familiar e com a sociedade onde nasci, da qual também faz alguns anos me afastei. Pude, contudo, retornar e procurar refundar a vida. Para Indienne, fiquei esperando o mesmo para aonde quer que fosse. A lucidez está nos que estão à margem, nos que enxergam nas brechas da noite o que o dia, que ainda não veio, pode trazer.

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Enquanto o dia não vem

Por Manoel em Artes Cênicas

11 de maio de 2017

Em “Avental todo sujo de ovo”, do Grupo Ninho de Teatro (Crato/CE) revisitamos a história de Iracema, revemos alguns dos traços de uma família do sertão que parece procurar conviver com a dor da falta do filho, Moacir, que foi tentar a vida no sudeste. Até que ele acaba voltando um dia, como Indienne Du Bois, uma travesti e ex-prostituta, que imita Clara Nunes em casas noturnas. Só pra não esquecermos, o Ceará é um dos estados mais homofóbicos do Brasil, país que mais mata travestis no mundo. Vimos este ano as mortes de Hérica, que foi jogada de um viaduto, e Dandara, cuja morte foi filmada e assistida, em plena luz do dia, não só pelos vizinhos mas por milhares.

Com tudo isso, o grupo – ao levar à cena este texto de Marcos Barbosa – faz um enfrentamento a esse cenário tão terrível, num processo iniciado por volta de dez anos atrás, numa parceria entre os atores e o diretor, Jânio Tavares. O resultado foi essa espécie de ritual que nos leva a uma realidade cênica em que os elementos (poucos) da cena são utilizados para pintar o ocre, a dor velada e mal disfarçada de um pai, de uma mãe, a muda aceitação ao cotidiano que os separou e às regras sociais que impõem essa mudez devastadora das relações familiares, como a deles, que precisarão refundar seu próprio chão, arar novamente sua própria terra para voltar a ser fértil.

Alguns dias após ver esse trabalho, pensei que sendo já longevo, tanto não deixa de expor a continuidade de nossa ferida como também se coloca no centro de um debate que o teatro do Ceará tem feito em todas as peças do Coletivo As Travestidas, em “Mão na face” do Bagaceira, “Final de Tarde” do Teatro de Caretas, “Orlando” do Expressões Humanas, “Caio e Léo”, “Histórias compartilhadas” e “Comer, querer, ver” do Outro Grupo, para ficarmos apenas em alguns exemplos recentes e realizados em Fortaleza.

Aqui se trata de reconhecer uma urgência que o teatro tem procurado expor, se trata de lutar por visibilidade também, mas nesse caso do Avental, de mostrar os pontos de tensão entre a moral familiar e a social, e também criar dessa tensão a possibilidade nos entrevermos como algozes e vítimas a um só tempo. A peça expõe as chagas abertas, não as resolve, a mãe que tanto quis saber do filho, filha, se mostra avessa à sua presença, a fim de protegê-la, talvez. O pai, de quem se poderia esperar o comportamento mais duro, o machismo mais conservador, balbucia o nome de Moacir, com um afeto que parece não ter encontrado outras palavras que não o próprio nome da cria perdida. Mas ele virou ela, e sua presença tem peso, contestação e muita lucidez, não se deixaria rebaixar por vizinhos, a voz continuaria soando anasalada, rouca e feminina. Uma pedra em muitos sapatos…

Também me chamo Moacir, trago esse nome indígena, junto a outro, português, e me revejo nessas cenas, também senti a dor de uma desconexão com o familiar e com a sociedade onde nasci, da qual também faz alguns anos me afastei. Pude, contudo, retornar e procurar refundar a vida. Para Indienne, fiquei esperando o mesmo para aonde quer que fosse. A lucidez está nos que estão à margem, nos que enxergam nas brechas da noite o que o dia, que ainda não veio, pode trazer.