Publicidade

Caderno de críticas

por Manoel Moacir

Outras catarses do trágico em Manchaaa e Devorando Heróis

Por Manoel em Artes Cênicas

01 de março de 2017

DEVORANDO HERÓIS – Os Pícaros IncorrigíveisFotografia Vitor Grilo

Posted by Coletivo Os Pícaros Incorrigíveis on Monday, September 5, 2016

Em 2016, tinha escrito um texto chamado “Crônica de uma tragédia”[1] sobre o trabalho “Marlene” do coletivo No barraco da Constância tem! Nele, falava de uma transmissão da condição trágica de artistas e espectadores, proporcionada pelo lamento da figura da “diva”, encarnada não apenas por Robson Levy, mas ao que parece, presente nas show girls e, também, num tom de sarcasmo da encenação de Honório Félix sobre o que se tem chamado de sociedade do espetáculo (essa, do comércio das imagens e dos estilos de vida, em que vivemos).
Seria, do mesmo modo, uma reação a um modelo de representação que se espraia nas relações e nos processos de criação, dentre eles, o próprio teatro, como um lugar que potencialmente reproduz e, com isso, induz a um modo de ver e fazer as coisas. Vejo uma proximidade desse tema, continuando a conversa do outro texto, com duas peças, uma de dança e outra de teatro vistas entre janeiro e fevereiro deste ano.

“Manchaaa” é feita de uma profusão de imagens, que vão surgindo pouco a pouco, levando-nos a um espaço de gestos repetidos, de figuras que vagueiam e em alguns momentos seguem um mesmo ritmo e um mesmo padrão de movimentação, encobertos, desejosos, revoltados. Felipe Araújo, Henrique Castro e Thomas Saunders nos apresentam suas formas de se mover que contém uma espécie de micro-mundo, que nos remeteria ao que vivemos de fato, diferente daquele tão idealizado do balé clássico. São como os oprimidos que se movem, que tentam seguir, e seguem, como podem.
Isso, em alguns momentos, nos dá uma percepção do “rés do chão”, da vida sem vernizes e de pessoas tornadas coisas, objetificadas com suas partes corporais sendo o foco do desejo, como quando Thomas, deitado, é beijado/chupado/devorado pelos outros dois, que ao mesmo tempo o iluminam. Cena igualmente ambígua, porque torna visível a relação entre dor e prazer no corpo da vítima e de seus algozes, pois no jogo dessa cena não se pode revidar (?), como no sado-masoquismo nosso de todos os dias.

O som que ouvimos, faz como que um comentário, em alto volume, dessa paisagem de desolação, aonde parece haver pouco espaço para a vida, assim fiquei pensando, e para ouvir outras partituras sonoras dessa dor, ainda que sejam variações de um mesmo tema, o que as torna menos plásticas que as imagens dos corpos.

Em outra direção, vai o trabalho do Os Pícaros Incorrigíveis, “Devorando Heróis: a Tragédia segundo os Pícaros”, baseado no Prometeu acorrentado, peça de Ésquilo, o primeiro dramaturgo de que se tem notícia, da tragédia grega. Mas aqui, ao invés de vivermos a tragédia como uma espécie de peso sobre a nossa alienada consciência, se sugere o riso, o escárnio e a ironia. Já sabemos um tanto da nossa condição humana e dos impasses sociais, desde os desastres da política até os aperreios do cotidiano em que as questões da própria existência se tornam visíveis, enfim, já estamos imersos no caos, e precisamos fazer algo com isso. Algo como se fantasiar, cantar e festejar a própria resistência, trazer à tona como o ato do artista é também o de um Prometeu, cujo fígado mesmo comido a cada dia por um abutre, volta a crescer novamente, por suas próprias forças, essas sim, imortais.

Os momentos em que as vozes se juntam ao texto de Ésquilo (ou também de fragmentos de outros textos), me pareceram trazer uma ironia brincante que tentava fazer frente ao tom trágico, do que de fato é mostrado em meio aos festejos. O pesar quase poderia levar a uma queda das energias e da atenção aos atores, sempre tão intensos, fica-se assim com a sensação de que na hora de dizer e ouvir o texto é preciso que o rito se faça mais sério, ou por alguns instantes, menos interessante.

Mas voltemos ao que prevalece, que Os Pícaros nos propõem um jogo de carnaval, porque “de cara não dá” (diz uma das marchinhas que cantam), não vai ser uma relação seca, austera e direta com o mito (e com o trágico), que vai acontecer. Ali, o espectador vai ser seduzido, na rua, no calor da hora, com uma boa dose de cachaça pra fazer o bonde andar.

[1] http://mmoacir.wixsite.com/caderno/single-post/2016/10/17/Cr%C3%B4nica-de-uma-trag%C3%A9dia

CONFIRA EM CARTAZ

Devorando Heróis – A Tragédia Segundo Os Pícaros
10, 17, 24 e 31 de março – 17 horas
Teatro Carlos Câmara

Marlene – dissecação do corpo do Espetáculo
4, 5, 11, 12, 19 e 25 de março – 20 horas
Teatro Sesc Emiliano Queiroz

Publicidade

leia tudo sobre

Outras catarses do trágico em Manchaaa e Devorando Heróis

Por Manoel em Artes Cênicas

01 de março de 2017

DEVORANDO HERÓIS – Os Pícaros IncorrigíveisFotografia Vitor Grilo

Posted by Coletivo Os Pícaros Incorrigíveis on Monday, September 5, 2016

Em 2016, tinha escrito um texto chamado “Crônica de uma tragédia”[1] sobre o trabalho “Marlene” do coletivo No barraco da Constância tem! Nele, falava de uma transmissão da condição trágica de artistas e espectadores, proporcionada pelo lamento da figura da “diva”, encarnada não apenas por Robson Levy, mas ao que parece, presente nas show girls e, também, num tom de sarcasmo da encenação de Honório Félix sobre o que se tem chamado de sociedade do espetáculo (essa, do comércio das imagens e dos estilos de vida, em que vivemos).
Seria, do mesmo modo, uma reação a um modelo de representação que se espraia nas relações e nos processos de criação, dentre eles, o próprio teatro, como um lugar que potencialmente reproduz e, com isso, induz a um modo de ver e fazer as coisas. Vejo uma proximidade desse tema, continuando a conversa do outro texto, com duas peças, uma de dança e outra de teatro vistas entre janeiro e fevereiro deste ano.

“Manchaaa” é feita de uma profusão de imagens, que vão surgindo pouco a pouco, levando-nos a um espaço de gestos repetidos, de figuras que vagueiam e em alguns momentos seguem um mesmo ritmo e um mesmo padrão de movimentação, encobertos, desejosos, revoltados. Felipe Araújo, Henrique Castro e Thomas Saunders nos apresentam suas formas de se mover que contém uma espécie de micro-mundo, que nos remeteria ao que vivemos de fato, diferente daquele tão idealizado do balé clássico. São como os oprimidos que se movem, que tentam seguir, e seguem, como podem.
Isso, em alguns momentos, nos dá uma percepção do “rés do chão”, da vida sem vernizes e de pessoas tornadas coisas, objetificadas com suas partes corporais sendo o foco do desejo, como quando Thomas, deitado, é beijado/chupado/devorado pelos outros dois, que ao mesmo tempo o iluminam. Cena igualmente ambígua, porque torna visível a relação entre dor e prazer no corpo da vítima e de seus algozes, pois no jogo dessa cena não se pode revidar (?), como no sado-masoquismo nosso de todos os dias.

O som que ouvimos, faz como que um comentário, em alto volume, dessa paisagem de desolação, aonde parece haver pouco espaço para a vida, assim fiquei pensando, e para ouvir outras partituras sonoras dessa dor, ainda que sejam variações de um mesmo tema, o que as torna menos plásticas que as imagens dos corpos.

Em outra direção, vai o trabalho do Os Pícaros Incorrigíveis, “Devorando Heróis: a Tragédia segundo os Pícaros”, baseado no Prometeu acorrentado, peça de Ésquilo, o primeiro dramaturgo de que se tem notícia, da tragédia grega. Mas aqui, ao invés de vivermos a tragédia como uma espécie de peso sobre a nossa alienada consciência, se sugere o riso, o escárnio e a ironia. Já sabemos um tanto da nossa condição humana e dos impasses sociais, desde os desastres da política até os aperreios do cotidiano em que as questões da própria existência se tornam visíveis, enfim, já estamos imersos no caos, e precisamos fazer algo com isso. Algo como se fantasiar, cantar e festejar a própria resistência, trazer à tona como o ato do artista é também o de um Prometeu, cujo fígado mesmo comido a cada dia por um abutre, volta a crescer novamente, por suas próprias forças, essas sim, imortais.

Os momentos em que as vozes se juntam ao texto de Ésquilo (ou também de fragmentos de outros textos), me pareceram trazer uma ironia brincante que tentava fazer frente ao tom trágico, do que de fato é mostrado em meio aos festejos. O pesar quase poderia levar a uma queda das energias e da atenção aos atores, sempre tão intensos, fica-se assim com a sensação de que na hora de dizer e ouvir o texto é preciso que o rito se faça mais sério, ou por alguns instantes, menos interessante.

Mas voltemos ao que prevalece, que Os Pícaros nos propõem um jogo de carnaval, porque “de cara não dá” (diz uma das marchinhas que cantam), não vai ser uma relação seca, austera e direta com o mito (e com o trágico), que vai acontecer. Ali, o espectador vai ser seduzido, na rua, no calor da hora, com uma boa dose de cachaça pra fazer o bonde andar.

[1] http://mmoacir.wixsite.com/caderno/single-post/2016/10/17/Cr%C3%B4nica-de-uma-trag%C3%A9dia

CONFIRA EM CARTAZ

Devorando Heróis – A Tragédia Segundo Os Pícaros
10, 17, 24 e 31 de março – 17 horas
Teatro Carlos Câmara

Marlene – dissecação do corpo do Espetáculo
4, 5, 11, 12, 19 e 25 de março – 20 horas
Teatro Sesc Emiliano Queiroz