Publicidade

Caderno de críticas

por Manoel Moacir

abril 2017

Os invisíveis de nós

Por Manoel em Artes Cênicas

12 de abril de 2017

Como é entrar na pele do outro? Como falar dos mais invisíveis e suas dores? O que é resistir? O que é possível dizer em lugar dos excluídos?

Essas são algumas perguntas que S/ N (Sem Número) colocam para o espectador, vindo de três atores que fazem sua conclusão na 23′ turma do curso de licenciatura em teatro do IFCE. Ao longo de três monólogos, podemos ouvir histórias de moradores de rua (“Darlans, Zefas, Irenes”…?) que nos trazem uma amostra do desespero e da solidão de estar nos limites. Excluídos, mas nas bordas, habitam nas sobras da cidade, nas praças e vielas, nas noites e madrugadas, no meio-dia, vividos pela metade.

A primeira moradora (Taciana Moura), catadora de lixo, nos fala de como perdeu seus dois filhos, um que a ignora e que ganhou alguma fama e outro que perdeu a vida triturado numa coleta de lixo, na sua frente. Seu desespero ganha força nos gestos firmes de Taciana, que parece investir neles parte de sua indignação frente ao que narra. A atriz ao final comenta: “Sinto muito”, sem expressões que possam querer representar a dor, nos desviando do que poderia ser a repetição de mais um bordão esvaziado.

Cena de S/ N (Sem Número)
Foto: Karol Monteiro

Na cena seguinte, um isqueiro é acionado algumas vezes em meio à escuridão, riscando o preto do palco com sua luz ligeira. Iluminando o teatro todo, um número, um achado para os olhos cansados de muitas imagens que carregamos. Um balé em meio a sacos de lixo que se segue com a segunda moradora (Jorge Lopes), a cantoria e uma defesa da poesia pelo terceiro (George Hudosn), apontam aonde se escondem outras facetas dessas vidas e de certa maneira mostram uma resistência que ultrapassa a história de vida dos personagens. Criam figuras que em alguns momentos nos olham mais de perto, quase a ponto de perguntar: ‘E vocês, como fazem?”

Em outra peça em cartaz, Elefantes famintos, as imagens que vemos seguem um modo menos direto, mais desviado de representar uma humanidade excluída, ancorando-se num tipo de surrealismo sombrio. São formas de estar numa ordem, mas sem dúvida pondo-a em cheque, constantemente. Performers do grupo Teatro Esgotado vestidos como crianças tentam se adaptar, mas acabam por se oprimir, em jogos que nunca terminam de atualizar um certo trauma, deixando-nos um espaço para imaginar sobre os processos de normalização e contenção com os quais nos familiarizamos desde tão cedo.

Nessas tramas, vemos como progressivamente se desvestem, um deles (Raí Santorini), com a bunda para cima é o único que se mostra nu, revelando-nos um corpo adulto e infantilizado em seus movimentos. O estranho familiar, já entrevisto nos textos de que partiram, de Ionesco. E também aquilo que é potencialmente disruptivo, que assimila a desconstrução de uma norma para compor outras.

Aqui, podemos pensar, ainda com perguntas, em como redefinir esses poderes e seu legado, falando de traumas pessoais e coletivos. Como lidar com o caos ou com o “não-humano”, o excluído?

CONFIRA EM CARTAZ

S/ N (Sem Número)
Dias 22/04 (sábado), às 2Oh e 23/04 (domingo), às 19h.
Teatro Sesc Iracema (Rua Boris, 90C, Praia de Iracema)
Entrada gratuita

ELEFANTES FAMINTOS
Dias 06, 13, 20 e 27/04 (quintas-feiras).
Duas sessões por dia: 12h30 e 16h.
Teatro Carlos Câmara (Rua Senador Pompeu, 454, Centro)
Entrada gratuita

leia tudo sobre

Publicidade

Os invisíveis de nós

Por Manoel em Artes Cênicas

12 de abril de 2017

Como é entrar na pele do outro? Como falar dos mais invisíveis e suas dores? O que é resistir? O que é possível dizer em lugar dos excluídos?

Essas são algumas perguntas que S/ N (Sem Número) colocam para o espectador, vindo de três atores que fazem sua conclusão na 23′ turma do curso de licenciatura em teatro do IFCE. Ao longo de três monólogos, podemos ouvir histórias de moradores de rua (“Darlans, Zefas, Irenes”…?) que nos trazem uma amostra do desespero e da solidão de estar nos limites. Excluídos, mas nas bordas, habitam nas sobras da cidade, nas praças e vielas, nas noites e madrugadas, no meio-dia, vividos pela metade.

A primeira moradora (Taciana Moura), catadora de lixo, nos fala de como perdeu seus dois filhos, um que a ignora e que ganhou alguma fama e outro que perdeu a vida triturado numa coleta de lixo, na sua frente. Seu desespero ganha força nos gestos firmes de Taciana, que parece investir neles parte de sua indignação frente ao que narra. A atriz ao final comenta: “Sinto muito”, sem expressões que possam querer representar a dor, nos desviando do que poderia ser a repetição de mais um bordão esvaziado.

Cena de S/ N (Sem Número)
Foto: Karol Monteiro

Na cena seguinte, um isqueiro é acionado algumas vezes em meio à escuridão, riscando o preto do palco com sua luz ligeira. Iluminando o teatro todo, um número, um achado para os olhos cansados de muitas imagens que carregamos. Um balé em meio a sacos de lixo que se segue com a segunda moradora (Jorge Lopes), a cantoria e uma defesa da poesia pelo terceiro (George Hudosn), apontam aonde se escondem outras facetas dessas vidas e de certa maneira mostram uma resistência que ultrapassa a história de vida dos personagens. Criam figuras que em alguns momentos nos olham mais de perto, quase a ponto de perguntar: ‘E vocês, como fazem?”

Em outra peça em cartaz, Elefantes famintos, as imagens que vemos seguem um modo menos direto, mais desviado de representar uma humanidade excluída, ancorando-se num tipo de surrealismo sombrio. São formas de estar numa ordem, mas sem dúvida pondo-a em cheque, constantemente. Performers do grupo Teatro Esgotado vestidos como crianças tentam se adaptar, mas acabam por se oprimir, em jogos que nunca terminam de atualizar um certo trauma, deixando-nos um espaço para imaginar sobre os processos de normalização e contenção com os quais nos familiarizamos desde tão cedo.

Nessas tramas, vemos como progressivamente se desvestem, um deles (Raí Santorini), com a bunda para cima é o único que se mostra nu, revelando-nos um corpo adulto e infantilizado em seus movimentos. O estranho familiar, já entrevisto nos textos de que partiram, de Ionesco. E também aquilo que é potencialmente disruptivo, que assimila a desconstrução de uma norma para compor outras.

Aqui, podemos pensar, ainda com perguntas, em como redefinir esses poderes e seu legado, falando de traumas pessoais e coletivos. Como lidar com o caos ou com o “não-humano”, o excluído?

CONFIRA EM CARTAZ

S/ N (Sem Número)
Dias 22/04 (sábado), às 2Oh e 23/04 (domingo), às 19h.
Teatro Sesc Iracema (Rua Boris, 90C, Praia de Iracema)
Entrada gratuita

ELEFANTES FAMINTOS
Dias 06, 13, 20 e 27/04 (quintas-feiras).
Duas sessões por dia: 12h30 e 16h.
Teatro Carlos Câmara (Rua Senador Pompeu, 454, Centro)
Entrada gratuita