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Caderno de críticas

por Manoel Moacir

Caio e Léo e o não-romantismo

Por Manoel em Artes Cênicas

15 de agosto de 2017

Por mais de uma vez vi “Caio e Léo” do Outro Grupo como uma peça sobre um amor entre homens que não dá certo, com uma certa ironia ao título da peça de Shakespeare, “Romeu e Julieta”, e seu enredo super romântico.

Mas nesse último fim de semana, pude ver um pouco além disso, talvez porque o tempo tenha agido sobre os próprios atores e sobre o espetáculo, uma meditação melancólica sobre amar nos dias de hoje, quando o romantismo parece ter saído de cena, em que manter ligações seja algo tão líquido, como já disse sobre a vida contemporânea Bauman.
Mas como ficamos sem o amor romântico?

Na cena, existe o som de mar, o risco de pular nas suas águas e não voltar, algo que se torna mais ambíguo ao final, quando o racionalista Caio (Ari Areia) parece querer “se jogar” nas águas, dentro de uma atmosfera de impasses. Aquele a quem amava e com quem não conseguia se envolver de fato, Leo (Tavares Neto), tinha sido contratado para o emprego dos sonhos, ser fotógrafo dos ventos, não mais um empregado do IML.

Caio e Leo. Atores: Ari Areia e Tavares Neto.
Foto: Eden Barbosa.

Os símbolos são muitas vezes claros e econômicos no que é dito, o texto de Rafael Martins. Parecem querer desenhar mais as situações do que nos trazerem questionamentos diante das imagens da peça, elas mesmas bastante explícitas das dificuldades de amar, mesmo quando o tom da encenação de Yuri Yamamoto busca uma abstração em relação ao realismo das situações, seja na manipulação de Caio pelo Leo (para ensiná-lo a fotografar), seja pela breve transformação de Caio em um boneco iluminado e conduzido sutilmente por Ari.

A beleza do (des) enlace entre Caio e Leo talvez esteja mesmo nessa separação, no fato de que tentam, e falham, a seu modo se encontrar em meio aos fluxos do vento das suas vidas. Uma ideia de sucesso da relação amorosa muitas vezes é permeada pelo imaginário heteronormativo de uma união em que as duas partes vivem juntas por toda a vida, acumulam bens, filhos e heranças. E nem sempre (ou quase nunca, para muitos) tem sido desse jeito…

Por isso, chegam bem perto de nós, em nossas errâncias e fracassos, e quem sabe da vida dos próprios atores, que também são namorados, e de algum modo nos mostram uma parceria que contamina a cena por meio de pausas e olhares, tons de voz e movimentos

A peça é apresentada dentro da mostra de repertório “ Outro Corpo” – de que também fazem parte “Comer querer ver” e “Histórias compartilhadas”- na qual o público poderá observar como esse grupo tem procurado discutir temas como diversidade sexual e de gênero, na tentativa, segundo eles mesmos dizem, de “fugir das obviedades” para falar dos próprios impulsos e desejos.

CONFIRA EM CARTAZ

OUTRO CORPO
Mostra de repertório do Outro Grupo de Teatro, durante todo o mês de Agosto/2017:

CAIO E LÉO
Teatro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81. Praia de Iracema)
Sábados e Domingos, 20h. R$ 5 (meia) e R$ 10 (inteira)

COMER QUERER VER
Teatro SESC Emiliano Queiroz (Av. Dq. de Caxias, 1700. Centro)
Sextas-feiras, 20h. R$ 5 (meia) R$ 10 (inteira)

HISTÓRIAS COMPARTILHADAS
Teatro Universitário (Av. da Universidade, 2210. Benfica)
Quintas-feiras, 20h. R$ 5 (meia) R$ 10 (inteira)

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A queda das imagens em Playback

Por Manoel em Artes Cênicas

16 de julho de 2017

Entrar no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, da UFC, com sua simples e misturada arquitetura, paradoxal, com os resquícios de reformas anteriores, nos conta sua história dividida em pelo menos duas. Uma que data de sua inauguração, quando podemos imaginar que se voltava ao realismo tido como natural desse palco, italiano. E outra, que amplia suas possibilidades a outras lógicas espetaculares, que têm sido exploradas por jovens grupos e diretores, como se dá no trabalho do Teatro Suspenso.

Performer: Devon Zoal
Foto: Toni Benvenuti

O que vemos ali, na peça Playback, são recriações, citações de pedaços de notícias (sons e imagens) e programas de diversos suportes midiáticos, e uma utilização desse modelo de palco italiano para falar das virtualidades e suas influências nas nossas relações, algo assumido no postal-programa-manifesto que recebemos. A condição nos é marcada desde o que se apresenta na divulgação, ou se projeta durante o espetáculo, como subtítulo: “Quem são os sujeitos dos discursos que cruzam nossas bocas?”

Gabriel Matos, Devon Zoal e Toni Benvenuti atuam como marionetes de um estranho freak show, que escarnece dessas outras grandes formas, em meio a projeções e janelas que não param de surgir, entre movimentos dos performers, suas dublagens e posições no espaço, sempre relacionadas ao ritmo do material audiovisual. Nessa lógica de atenção/assimilação do dispositivo tecnológico, somos jogados entre a adesão e a suspensão da crença no que fazem, e no como agem.

Sem a estabilidade das sincronias entre as vozes dos áudios e os corpos, o que tanto nos prenderia no formato italiano, o olhar pode vacilar, e em sua queda, ver-se exigindo o aspecto espetacular das telas às quais está de algum modo preso. Nesse ponto, a peça parece se propor como decalque, ou melhor provocação, sobre a própria ideia de “montar” e “mostrar” uma peça.

Isso fica mais claro num momento em que o palco ganha fala e “fala” sobre si mesmo, sem aqueles que antes cruzaram sua boca, como um fantasma do signo teatro, o que ali me pareceu abrir uma outra via, outras possibilidades dessa dramaturgia dos espaços, que tanto se interroga sobre si mesma.

Afinal, o palco, italiano e do teatro, é ainda e sempre um lugar da diferença em relação ao que se apresenta como grande mídia, montado e mostrado em Playback.

CONFIRA EM CARTAZ

Playback: Quem são os sujeitos dos discursos que cruzam nossas bocas?
Datas: 15, 22 e 29 / Julho (sábados) e 28 /Julho (sexta-feira)
Horário: 19:00
Local: Teatro Universitário Paschoal de Carlos Magno
Endereço: Av. da Universidade, 2210, Benfica
Preços: R$ 5,00 / R$ 10,00

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Enquanto o dia não vem

Por Manoel em Artes Cênicas

11 de maio de 2017

Em “Avental todo sujo de ovo”, do Grupo Ninho de Teatro (Crato/CE) revisitamos a história de Iracema, revemos alguns dos traços de uma família do sertão que parece procurar conviver com a dor da falta do filho, Moacir, que foi tentar a vida no sudeste. Até que ele acaba voltando um dia, como Indienne Du Bois, uma travesti e ex-prostituta, que imita Clara Nunes em casas noturnas. Só pra não esquecermos, o Ceará é um dos estados mais homofóbicos do Brasil, país que mais mata travestis no mundo. Vimos este ano as mortes de Hérica, que foi jogada de um viaduto, e Dandara, cuja morte foi filmada e assistida, em plena luz do dia, não só pelos vizinhos mas por milhares.

Com tudo isso, o grupo – ao levar à cena este texto de Marcos Barbosa – faz um enfrentamento a esse cenário tão terrível, num processo iniciado por volta de dez anos atrás, numa parceria entre os atores e o diretor, Jânio Tavares. O resultado foi essa espécie de ritual que nos leva a uma realidade cênica em que os elementos (poucos) da cena são utilizados para pintar o ocre, a dor velada e mal disfarçada de um pai, de uma mãe, a muda aceitação ao cotidiano que os separou e às regras sociais que impõem essa mudez devastadora das relações familiares, como a deles, que precisarão refundar seu próprio chão, arar novamente sua própria terra para voltar a ser fértil.

Alguns dias após ver esse trabalho, pensei que sendo já longevo, tanto não deixa de expor a continuidade de nossa ferida como também se coloca no centro de um debate que o teatro do Ceará tem feito em todas as peças do Coletivo As Travestidas, em “Mão na face” do Bagaceira, “Final de Tarde” do Teatro de Caretas, “Orlando” do Expressões Humanas, “Caio e Léo”, “Histórias compartilhadas” e “Comer, querer, ver” do Outro Grupo, para ficarmos apenas em alguns exemplos recentes e realizados em Fortaleza.

Aqui se trata de reconhecer uma urgência que o teatro tem procurado expor, se trata de lutar por visibilidade também, mas nesse caso do Avental, de mostrar os pontos de tensão entre a moral familiar e a social, e também criar dessa tensão a possibilidade nos entrevermos como algozes e vítimas a um só tempo. A peça expõe as chagas abertas, não as resolve, a mãe que tanto quis saber do filho, filha, se mostra avessa à sua presença, a fim de protegê-la, talvez. O pai, de quem se poderia esperar o comportamento mais duro, o machismo mais conservador, balbucia o nome de Moacir, com um afeto que parece não ter encontrado outras palavras que não o próprio nome da cria perdida. Mas ele virou ela, e sua presença tem peso, contestação e muita lucidez, não se deixaria rebaixar por vizinhos, a voz continuaria soando anasalada, rouca e feminina. Uma pedra em muitos sapatos…

Também me chamo Moacir, trago esse nome indígena, junto a outro, português, e me revejo nessas cenas, também senti a dor de uma desconexão com o familiar e com a sociedade onde nasci, da qual também faz alguns anos me afastei. Pude, contudo, retornar e procurar refundar a vida. Para Indienne, fiquei esperando o mesmo para aonde quer que fosse. A lucidez está nos que estão à margem, nos que enxergam nas brechas da noite o que o dia, que ainda não veio, pode trazer.

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Os invisíveis de nós

Por Manoel em Artes Cênicas

12 de abril de 2017

Como é entrar na pele do outro? Como falar dos mais invisíveis e suas dores? O que é resistir? O que é possível dizer em lugar dos excluídos?

Essas são algumas perguntas que S/ N (Sem Número) colocam para o espectador, vindo de três atores que fazem sua conclusão na 23′ turma do curso de licenciatura em teatro do IFCE. Ao longo de três monólogos, podemos ouvir histórias de moradores de rua (“Darlans, Zefas, Irenes”…?) que nos trazem uma amostra do desespero e da solidão de estar nos limites. Excluídos, mas nas bordas, habitam nas sobras da cidade, nas praças e vielas, nas noites e madrugadas, no meio-dia, vividos pela metade.

A primeira moradora (Taciana Moura), catadora de lixo, nos fala de como perdeu seus dois filhos, um que a ignora e que ganhou alguma fama e outro que perdeu a vida triturado numa coleta de lixo, na sua frente. Seu desespero ganha força nos gestos firmes de Taciana, que parece investir neles parte de sua indignação frente ao que narra. A atriz ao final comenta: “Sinto muito”, sem expressões que possam querer representar a dor, nos desviando do que poderia ser a repetição de mais um bordão esvaziado.

Cena de S/ N (Sem Número)
Foto: Karol Monteiro

Na cena seguinte, um isqueiro é acionado algumas vezes em meio à escuridão, riscando o preto do palco com sua luz ligeira. Iluminando o teatro todo, um número, um achado para os olhos cansados de muitas imagens que carregamos. Um balé em meio a sacos de lixo que se segue com a segunda moradora (Jorge Lopes), a cantoria e uma defesa da poesia pelo terceiro (George Hudosn), apontam aonde se escondem outras facetas dessas vidas e de certa maneira mostram uma resistência que ultrapassa a história de vida dos personagens. Criam figuras que em alguns momentos nos olham mais de perto, quase a ponto de perguntar: ‘E vocês, como fazem?”

Em outra peça em cartaz, Elefantes famintos, as imagens que vemos seguem um modo menos direto, mais desviado de representar uma humanidade excluída, ancorando-se num tipo de surrealismo sombrio. São formas de estar numa ordem, mas sem dúvida pondo-a em cheque, constantemente. Performers do grupo Teatro Esgotado vestidos como crianças tentam se adaptar, mas acabam por se oprimir, em jogos que nunca terminam de atualizar um certo trauma, deixando-nos um espaço para imaginar sobre os processos de normalização e contenção com os quais nos familiarizamos desde tão cedo.

Nessas tramas, vemos como progressivamente se desvestem, um deles (Raí Santorini), com a bunda para cima é o único que se mostra nu, revelando-nos um corpo adulto e infantilizado em seus movimentos. O estranho familiar, já entrevisto nos textos de que partiram, de Ionesco. E também aquilo que é potencialmente disruptivo, que assimila a desconstrução de uma norma para compor outras.

Aqui, podemos pensar, ainda com perguntas, em como redefinir esses poderes e seu legado, falando de traumas pessoais e coletivos. Como lidar com o caos ou com o “não-humano”, o excluído?

CONFIRA EM CARTAZ

S/ N (Sem Número)
Dias 22/04 (sábado), às 2Oh e 23/04 (domingo), às 19h.
Teatro Sesc Iracema (Rua Boris, 90C, Praia de Iracema)
Entrada gratuita

ELEFANTES FAMINTOS
Dias 06, 13, 20 e 27/04 (quintas-feiras).
Duas sessões por dia: 12h30 e 16h.
Teatro Carlos Câmara (Rua Senador Pompeu, 454, Centro)
Entrada gratuita

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Uma viagem pelas margens

Por Manoel em Artes Cênicas

24 de março de 2017

Espetáculo “Margem”. Foto: Divulgação

No último fim de semana pudemos ver “Margem” da Cia Suspensa, de Belo Horizonte, que esteve em cartaz por apenas dois dias no Teatro do Dragão do Mar. Juntando mais de quinze anos de trabalhos e pesquisas entre o circo, a performance e o teatro, a Cia. nos trouxe mais que um “encontro entre as linguagens”, uma releitura muito própria de suas possibilidades, sem alardes, sem grandes “efeitos” que tradicionalmente podem se associar aos seus universos.

Vimos uma série de ações que buscam relacionar os performers a objetos como cordas e cadeiras, buscando (des-)conexões, reinvenções da forma humana, mas também retirando daqueles objetos seus sentidos habituais. Um trabalho com o silêncio, a não ser em alguns momentos, em que ouvimos pontuações sonoras, ruídos da própria cena, ou ao que parece, gravados a partir dela. Existe aí talvez a continuidade da utopia de alguns criadores na escrita e no teatro, como Kleist e Gordon Craig, de um ator-bailarino-marionete, que nos ofereça uma outra forma de mostrar/pensar a realidade. Contudo, esses performers que vemos desafiar as possibilidades , as combinações e as técnicas vindas do passado, não nos remetem a qualquer conto ou enredo. Operam sem comentários sugerindo não mais que imagens ao que possamos perceber.

Atuando assim, numa quase indiferença à vaidade de exibir-se, exigem de nós uma co-presença , um olhar para todos os detalhes, a respiração cúmplice, e desse modo diferente, nos prendem a atenção pelo que mostram que vai acontecer ou pelo que está acontecendo.

Música como ruído. Peça como instalação. Mostrar como atuação. Dançar a partir de movimentos cotidianos…. Essas são algumas conquistas da dança nos últimos anos, e foram trazidas por nomes como o de Trisha Brown, bailarina e coreógrafa que nos deixou no último fim de semana. De algum modo, a aproximação desses artistas aqui pode nos lembrar que a exploração dessas conquistas está apenas começando.

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Outras catarses do trágico em Manchaaa e Devorando Heróis

Por Manoel em Artes Cênicas

01 de março de 2017

DEVORANDO HERÓIS – Os Pícaros IncorrigíveisFotografia Vitor Grilo

Posted by Coletivo Os Pícaros Incorrigíveis on Monday, September 5, 2016

Em 2016, tinha escrito um texto chamado “Crônica de uma tragédia”[1] sobre o trabalho “Marlene” do coletivo No barraco da Constância tem! Nele, falava de uma transmissão da condição trágica de artistas e espectadores, proporcionada pelo lamento da figura da “diva”, encarnada não apenas por Robson Levy, mas ao que parece, presente nas show girls e, também, num tom de sarcasmo da encenação de Honório Félix sobre o que se tem chamado de sociedade do espetáculo (essa, do comércio das imagens e dos estilos de vida, em que vivemos).
Seria, do mesmo modo, uma reação a um modelo de representação que se espraia nas relações e nos processos de criação, dentre eles, o próprio teatro, como um lugar que potencialmente reproduz e, com isso, induz a um modo de ver e fazer as coisas. Vejo uma proximidade desse tema, continuando a conversa do outro texto, com duas peças, uma de dança e outra de teatro vistas entre janeiro e fevereiro deste ano.

“Manchaaa” é feita de uma profusão de imagens, que vão surgindo pouco a pouco, levando-nos a um espaço de gestos repetidos, de figuras que vagueiam e em alguns momentos seguem um mesmo ritmo e um mesmo padrão de movimentação, encobertos, desejosos, revoltados. Felipe Araújo, Henrique Castro e Thomas Saunders nos apresentam suas formas de se mover que contém uma espécie de micro-mundo, que nos remeteria ao que vivemos de fato, diferente daquele tão idealizado do balé clássico. São como os oprimidos que se movem, que tentam seguir, e seguem, como podem.
Isso, em alguns momentos, nos dá uma percepção do “rés do chão”, da vida sem vernizes e de pessoas tornadas coisas, objetificadas com suas partes corporais sendo o foco do desejo, como quando Thomas, deitado, é beijado/chupado/devorado pelos outros dois, que ao mesmo tempo o iluminam. Cena igualmente ambígua, porque torna visível a relação entre dor e prazer no corpo da vítima e de seus algozes, pois no jogo dessa cena não se pode revidar (?), como no sado-masoquismo nosso de todos os dias.

O som que ouvimos, faz como que um comentário, em alto volume, dessa paisagem de desolação, aonde parece haver pouco espaço para a vida, assim fiquei pensando, e para ouvir outras partituras sonoras dessa dor, ainda que sejam variações de um mesmo tema, o que as torna menos plásticas que as imagens dos corpos.

Em outra direção, vai o trabalho do Os Pícaros Incorrigíveis, “Devorando Heróis: a Tragédia segundo os Pícaros”, baseado no Prometeu acorrentado, peça de Ésquilo, o primeiro dramaturgo de que se tem notícia, da tragédia grega. Mas aqui, ao invés de vivermos a tragédia como uma espécie de peso sobre a nossa alienada consciência, se sugere o riso, o escárnio e a ironia. Já sabemos um tanto da nossa condição humana e dos impasses sociais, desde os desastres da política até os aperreios do cotidiano em que as questões da própria existência se tornam visíveis, enfim, já estamos imersos no caos, e precisamos fazer algo com isso. Algo como se fantasiar, cantar e festejar a própria resistência, trazer à tona como o ato do artista é também o de um Prometeu, cujo fígado mesmo comido a cada dia por um abutre, volta a crescer novamente, por suas próprias forças, essas sim, imortais.

Os momentos em que as vozes se juntam ao texto de Ésquilo (ou também de fragmentos de outros textos), me pareceram trazer uma ironia brincante que tentava fazer frente ao tom trágico, do que de fato é mostrado em meio aos festejos. O pesar quase poderia levar a uma queda das energias e da atenção aos atores, sempre tão intensos, fica-se assim com a sensação de que na hora de dizer e ouvir o texto é preciso que o rito se faça mais sério, ou por alguns instantes, menos interessante.

Mas voltemos ao que prevalece, que Os Pícaros nos propõem um jogo de carnaval, porque “de cara não dá” (diz uma das marchinhas que cantam), não vai ser uma relação seca, austera e direta com o mito (e com o trágico), que vai acontecer. Ali, o espectador vai ser seduzido, na rua, no calor da hora, com uma boa dose de cachaça pra fazer o bonde andar.

[1] http://mmoacir.wixsite.com/caderno/single-post/2016/10/17/Cr%C3%B4nica-de-uma-trag%C3%A9dia

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Devorando Heróis – A Tragédia Segundo Os Pícaros
10, 17, 24 e 31 de março – 17 horas
Teatro Carlos Câmara

Marlene – dissecação do corpo do Espetáculo
4, 5, 11, 12, 19 e 25 de março – 20 horas
Teatro Sesc Emiliano Queiroz

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Algumas palavras sobre a crítica e seu lugar desejado

Por Manoel em Artes Cênicas

13 de fevereiro de 2017

Abrir esse espaço de colaboração com o portal Tribuna do Ceará é um passo muito grande para mim, porque faz ecoar o desejo de colaborar com a cena de teatro e dança locais de um modo novo. Meu encontro com a crítica se deu por esse desejo mesmo que é de registrar e de escrever e aconteceu aos poucos, primeiro como impressões que anotava, depois em alguns blogs, convites para escrever e falar de espetáculos, e por aí vai.

Fui assim chamado a escrever críticas ou a dividir opiniões e também a ler o que outros falavam sobre criações que me interessassem, algumas delas até bem distantes de nós. Aceitei todos esses chamados porque vieram como resultado de uma atuação no território da arte-educação e estavam em mim como necessidades de mediar, conversar, refletir, e assim, de registrar as memórias, os depoimentos de algo efêmero e que acontece nos momentos das apresentações, mas que de algum modo ressoam e perduram como marcas no tempo para muitos.

Meu olhar vagueia entre a crítica (um gênero especulativo, jornalístico) e a crônica (como uma outra forma do conto e das narrativas curtas) para não silenciar o desejo de criação nem a vontade de emitir o que se pensa, não apenas julgar, mas abrir caminho para mediação. Até mesmo uma crítica de outra geração e tida como conservadora como Bárbara Heliodora dizia que a crítica (teatral, no caso) serviria, entre outras coisas, como ponte entre o público e o novo. Mais recentemente, e indo mais direto ao ponto que me interessa, o crítico argentino Jorge Dubatti nos chama a atenção para a necessidade de se falar de uma função ontológica própria do teatro, que sua ritualização nos leva a um encontro com a própria vida. Essa função ou natureza pertence a todos.

A essas ideias, também acho que nós que escrevemos podemos estimular o contato com artistas e públicos, observando em ambos o que faz sair de lugares e preconceitos comuns. Não se trataria de explicar a esmo teorias e verdades individuais, mas sim de achar o que nos é possível ver/ falar sobre o que é comum a mais de um. O que a obra, seja em que formato for, traz como provocação, como margem de reinvenção da vida habitual? Ou, aonde ela nos leva a lugares improváveis, ainda que não sejam lugares de contemplação confortáveis em si?

Como escrita isso se trata de falar em nós, no plural, mesmo num texto como esse, que começou tão em primeira pessoa. É também deixar de lado o ensimesmamento, muitas vezes necessário ao ato de fruir, e torná-lo algo concreto, palpável, como uma outra marca que talvez possa ser deixada no tempo.

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Caio e Léo e o não-romantismo

Por Manoel em Artes Cênicas

15 de agosto de 2017

Por mais de uma vez vi “Caio e Léo” do Outro Grupo como uma peça sobre um amor entre homens que não dá certo, com uma certa ironia ao título da peça de Shakespeare, “Romeu e Julieta”, e seu enredo super romântico.

Mas nesse último fim de semana, pude ver um pouco além disso, talvez porque o tempo tenha agido sobre os próprios atores e sobre o espetáculo, uma meditação melancólica sobre amar nos dias de hoje, quando o romantismo parece ter saído de cena, em que manter ligações seja algo tão líquido, como já disse sobre a vida contemporânea Bauman.
Mas como ficamos sem o amor romântico?

Na cena, existe o som de mar, o risco de pular nas suas águas e não voltar, algo que se torna mais ambíguo ao final, quando o racionalista Caio (Ari Areia) parece querer “se jogar” nas águas, dentro de uma atmosfera de impasses. Aquele a quem amava e com quem não conseguia se envolver de fato, Leo (Tavares Neto), tinha sido contratado para o emprego dos sonhos, ser fotógrafo dos ventos, não mais um empregado do IML.

Caio e Leo. Atores: Ari Areia e Tavares Neto.
Foto: Eden Barbosa.

Os símbolos são muitas vezes claros e econômicos no que é dito, o texto de Rafael Martins. Parecem querer desenhar mais as situações do que nos trazerem questionamentos diante das imagens da peça, elas mesmas bastante explícitas das dificuldades de amar, mesmo quando o tom da encenação de Yuri Yamamoto busca uma abstração em relação ao realismo das situações, seja na manipulação de Caio pelo Leo (para ensiná-lo a fotografar), seja pela breve transformação de Caio em um boneco iluminado e conduzido sutilmente por Ari.

A beleza do (des) enlace entre Caio e Leo talvez esteja mesmo nessa separação, no fato de que tentam, e falham, a seu modo se encontrar em meio aos fluxos do vento das suas vidas. Uma ideia de sucesso da relação amorosa muitas vezes é permeada pelo imaginário heteronormativo de uma união em que as duas partes vivem juntas por toda a vida, acumulam bens, filhos e heranças. E nem sempre (ou quase nunca, para muitos) tem sido desse jeito…

Por isso, chegam bem perto de nós, em nossas errâncias e fracassos, e quem sabe da vida dos próprios atores, que também são namorados, e de algum modo nos mostram uma parceria que contamina a cena por meio de pausas e olhares, tons de voz e movimentos

A peça é apresentada dentro da mostra de repertório “ Outro Corpo” – de que também fazem parte “Comer querer ver” e “Histórias compartilhadas”- na qual o público poderá observar como esse grupo tem procurado discutir temas como diversidade sexual e de gênero, na tentativa, segundo eles mesmos dizem, de “fugir das obviedades” para falar dos próprios impulsos e desejos.

CONFIRA EM CARTAZ

OUTRO CORPO
Mostra de repertório do Outro Grupo de Teatro, durante todo o mês de Agosto/2017:

CAIO E LÉO
Teatro Dragão do Mar (Rua Dragão do Mar, 81. Praia de Iracema)
Sábados e Domingos, 20h. R$ 5 (meia) e R$ 10 (inteira)

COMER QUERER VER
Teatro SESC Emiliano Queiroz (Av. Dq. de Caxias, 1700. Centro)
Sextas-feiras, 20h. R$ 5 (meia) R$ 10 (inteira)

HISTÓRIAS COMPARTILHADAS
Teatro Universitário (Av. da Universidade, 2210. Benfica)
Quintas-feiras, 20h. R$ 5 (meia) R$ 10 (inteira)