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Caderno de críticas

por Manoel Moacir

Uma viagem pelas margens

Por Manoel em Artes Cênicas

24 de março de 2017

Espetáculo “Margem”. Foto: Divulgação

No último fim de semana pudemos ver “Margem” da Cia Suspensa, de Belo Horizonte, que esteve em cartaz por apenas dois dias no Teatro do Dragão do Mar. Juntando mais de quinze anos de trabalhos e pesquisas entre o circo, a performance e o teatro, a Cia. nos trouxe mais que um “encontro entre as linguagens”, uma releitura muito própria de suas possibilidades, sem alardes, sem grandes “efeitos” que tradicionalmente podem se associar aos seus universos.

Vimos uma série de ações que buscam relacionar os performers a objetos como cordas e cadeiras, buscando (des-)conexões, reinvenções da forma humana, mas também retirando daqueles objetos seus sentidos habituais. Um trabalho com o silêncio, a não ser em alguns momentos, em que ouvimos pontuações sonoras, ruídos da própria cena, ou ao que parece, gravados a partir dela. Existe aí talvez a continuidade da utopia de alguns criadores na escrita e no teatro, como Kleist e Gordon Craig, de um ator-bailarino-marionete, que nos ofereça uma outra forma de mostrar/pensar a realidade. Contudo, esses performers que vemos desafiar as possibilidades , as combinações e as técnicas vindas do passado, não nos remetem a qualquer conto ou enredo. Operam sem comentários sugerindo não mais que imagens ao que possamos perceber.

Atuando assim, numa quase indiferença à vaidade de exibir-se, exigem de nós uma co-presença , um olhar para todos os detalhes, a respiração cúmplice, e desse modo diferente, nos prendem a atenção pelo que mostram que vai acontecer ou pelo que está acontecendo.

Música como ruído. Peça como instalação. Mostrar como atuação. Dançar a partir de movimentos cotidianos…. Essas são algumas conquistas da dança nos últimos anos, e foram trazidas por nomes como o de Trisha Brown, bailarina e coreógrafa que nos deixou no último fim de semana. De algum modo, a aproximação desses artistas aqui pode nos lembrar que a exploração dessas conquistas está apenas começando.

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Outras catarses do trágico em Manchaaa e Devorando Heróis

Por Manoel em Artes Cênicas

01 de março de 2017

DEVORANDO HERÓIS – Os Pícaros IncorrigíveisFotografia Vitor Grilo

Posted by Coletivo Os Pícaros Incorrigíveis on Monday, September 5, 2016

Em 2016, tinha escrito um texto chamado “Crônica de uma tragédia”[1] sobre o trabalho “Marlene” do coletivo No barraco da Constância tem! Nele, falava de uma transmissão da condição trágica de artistas e espectadores, proporcionada pelo lamento da figura da “diva”, encarnada não apenas por Robson Levy, mas ao que parece, presente nas show girls e, também, num tom de sarcasmo da encenação de Honório Félix sobre o que se tem chamado de sociedade do espetáculo (essa, do comércio das imagens e dos estilos de vida, em que vivemos).
Seria, do mesmo modo, uma reação a um modelo de representação que se espraia nas relações e nos processos de criação, dentre eles, o próprio teatro, como um lugar que potencialmente reproduz e, com isso, induz a um modo de ver e fazer as coisas. Vejo uma proximidade desse tema, continuando a conversa do outro texto, com duas peças, uma de dança e outra de teatro vistas entre janeiro e fevereiro deste ano.

“Manchaaa” é feita de uma profusão de imagens, que vão surgindo pouco a pouco, levando-nos a um espaço de gestos repetidos, de figuras que vagueiam e em alguns momentos seguem um mesmo ritmo e um mesmo padrão de movimentação, encobertos, desejosos, revoltados. Felipe Araújo, Henrique Castro e Thomas Saunders nos apresentam suas formas de se mover que contém uma espécie de micro-mundo, que nos remeteria ao que vivemos de fato, diferente daquele tão idealizado do balé clássico. São como os oprimidos que se movem, que tentam seguir, e seguem, como podem.
Isso, em alguns momentos, nos dá uma percepção do “rés do chão”, da vida sem vernizes e de pessoas tornadas coisas, objetificadas com suas partes corporais sendo o foco do desejo, como quando Thomas, deitado, é beijado/chupado/devorado pelos outros dois, que ao mesmo tempo o iluminam. Cena igualmente ambígua, porque torna visível a relação entre dor e prazer no corpo da vítima e de seus algozes, pois no jogo dessa cena não se pode revidar (?), como no sado-masoquismo nosso de todos os dias.

O som que ouvimos, faz como que um comentário, em alto volume, dessa paisagem de desolação, aonde parece haver pouco espaço para a vida, assim fiquei pensando, e para ouvir outras partituras sonoras dessa dor, ainda que sejam variações de um mesmo tema, o que as torna menos plásticas que as imagens dos corpos.

Em outra direção, vai o trabalho do Os Pícaros Incorrigíveis, “Devorando Heróis: a Tragédia segundo os Pícaros”, baseado no Prometeu acorrentado, peça de Ésquilo, o primeiro dramaturgo de que se tem notícia, da tragédia grega. Mas aqui, ao invés de vivermos a tragédia como uma espécie de peso sobre a nossa alienada consciência, se sugere o riso, o escárnio e a ironia. Já sabemos um tanto da nossa condição humana e dos impasses sociais, desde os desastres da política até os aperreios do cotidiano em que as questões da própria existência se tornam visíveis, enfim, já estamos imersos no caos, e precisamos fazer algo com isso. Algo como se fantasiar, cantar e festejar a própria resistência, trazer à tona como o ato do artista é também o de um Prometeu, cujo fígado mesmo comido a cada dia por um abutre, volta a crescer novamente, por suas próprias forças, essas sim, imortais.

Os momentos em que as vozes se juntam ao texto de Ésquilo (ou também de fragmentos de outros textos), me pareceram trazer uma ironia brincante que tentava fazer frente ao tom trágico, do que de fato é mostrado em meio aos festejos. O pesar quase poderia levar a uma queda das energias e da atenção aos atores, sempre tão intensos, fica-se assim com a sensação de que na hora de dizer e ouvir o texto é preciso que o rito se faça mais sério, ou por alguns instantes, menos interessante.

Mas voltemos ao que prevalece, que Os Pícaros nos propõem um jogo de carnaval, porque “de cara não dá” (diz uma das marchinhas que cantam), não vai ser uma relação seca, austera e direta com o mito (e com o trágico), que vai acontecer. Ali, o espectador vai ser seduzido, na rua, no calor da hora, com uma boa dose de cachaça pra fazer o bonde andar.

[1] http://mmoacir.wixsite.com/caderno/single-post/2016/10/17/Cr%C3%B4nica-de-uma-trag%C3%A9dia

CONFIRA EM CARTAZ

Devorando Heróis – A Tragédia Segundo Os Pícaros
10, 17, 24 e 31 de março – 17 horas
Teatro Carlos Câmara

Marlene – dissecação do corpo do Espetáculo
4, 5, 11, 12, 19 e 25 de março – 20 horas
Teatro Sesc Emiliano Queiroz

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Algumas palavras sobre a crítica e seu lugar desejado

Por Manoel em Artes Cênicas

13 de fevereiro de 2017

Abrir esse espaço de colaboração com o portal Tribuna do Ceará é um passo muito grande para mim, porque faz ecoar o desejo de colaborar com a cena de teatro e dança locais de um modo novo. Meu encontro com a crítica se deu por esse desejo mesmo que é de registrar e de escrever e aconteceu aos poucos, primeiro como impressões que anotava, depois em alguns blogs, convites para escrever e falar de espetáculos, e por aí vai.

Fui assim chamado a escrever críticas ou a dividir opiniões e também a ler o que outros falavam sobre criações que me interessassem, algumas delas até bem distantes de nós. Aceitei todos esses chamados porque vieram como resultado de uma atuação no território da arte-educação e estavam em mim como necessidades de mediar, conversar, refletir, e assim, de registrar as memórias, os depoimentos de algo efêmero e que acontece nos momentos das apresentações, mas que de algum modo ressoam e perduram como marcas no tempo para muitos.

Meu olhar vagueia entre a crítica (um gênero especulativo, jornalístico) e a crônica (como uma outra forma do conto e das narrativas curtas) para não silenciar o desejo de criação nem a vontade de emitir o que se pensa, não apenas julgar, mas abrir caminho para mediação. Até mesmo uma crítica de outra geração e tida como conservadora como Bárbara Heliodora dizia que a crítica (teatral, no caso) serviria, entre outras coisas, como ponte entre o público e o novo. Mais recentemente, e indo mais direto ao ponto que me interessa, o crítico argentino Jorge Dubatti nos chama a atenção para a necessidade de se falar de uma função ontológica própria do teatro, que sua ritualização nos leva a um encontro com a própria vida. Essa função ou natureza pertence a todos.

A essas ideias, também acho que nós que escrevemos podemos estimular o contato com artistas e públicos, observando em ambos o que faz sair de lugares e preconceitos comuns. Não se trataria de explicar a esmo teorias e verdades individuais, mas sim de achar o que nos é possível ver/ falar sobre o que é comum a mais de um. O que a obra, seja em que formato for, traz como provocação, como margem de reinvenção da vida habitual? Ou, aonde ela nos leva a lugares improváveis, ainda que não sejam lugares de contemplação confortáveis em si?

Como escrita isso se trata de falar em nós, no plural, mesmo num texto como esse, que começou tão em primeira pessoa. É também deixar de lado o ensimesmamento, muitas vezes necessário ao ato de fruir, e torná-lo algo concreto, palpável, como uma outra marca que talvez possa ser deixada no tempo.

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Uma viagem pelas margens

Por Manoel em Artes Cênicas

24 de março de 2017

Espetáculo “Margem”. Foto: Divulgação

No último fim de semana pudemos ver “Margem” da Cia Suspensa, de Belo Horizonte, que esteve em cartaz por apenas dois dias no Teatro do Dragão do Mar. Juntando mais de quinze anos de trabalhos e pesquisas entre o circo, a performance e o teatro, a Cia. nos trouxe mais que um “encontro entre as linguagens”, uma releitura muito própria de suas possibilidades, sem alardes, sem grandes “efeitos” que tradicionalmente podem se associar aos seus universos.

Vimos uma série de ações que buscam relacionar os performers a objetos como cordas e cadeiras, buscando (des-)conexões, reinvenções da forma humana, mas também retirando daqueles objetos seus sentidos habituais. Um trabalho com o silêncio, a não ser em alguns momentos, em que ouvimos pontuações sonoras, ruídos da própria cena, ou ao que parece, gravados a partir dela. Existe aí talvez a continuidade da utopia de alguns criadores na escrita e no teatro, como Kleist e Gordon Craig, de um ator-bailarino-marionete, que nos ofereça uma outra forma de mostrar/pensar a realidade. Contudo, esses performers que vemos desafiar as possibilidades , as combinações e as técnicas vindas do passado, não nos remetem a qualquer conto ou enredo. Operam sem comentários sugerindo não mais que imagens ao que possamos perceber.

Atuando assim, numa quase indiferença à vaidade de exibir-se, exigem de nós uma co-presença , um olhar para todos os detalhes, a respiração cúmplice, e desse modo diferente, nos prendem a atenção pelo que mostram que vai acontecer ou pelo que está acontecendo.

Música como ruído. Peça como instalação. Mostrar como atuação. Dançar a partir de movimentos cotidianos…. Essas são algumas conquistas da dança nos últimos anos, e foram trazidas por nomes como o de Trisha Brown, bailarina e coreógrafa que nos deixou no último fim de semana. De algum modo, a aproximação desses artistas aqui pode nos lembrar que a exploração dessas conquistas está apenas começando.