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A volta da boemia

por Mayara Kiwi

“Eu não faço do palco um palanque”, diz Tico Santa Cruz em sua passagem pelo Ceará.

Por Mayara Kiwi em Diversão e cultura

29 de maio de 2017

O músico e vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, fez uma passagem pelo Ceará, para fazer duas apresentações, uma em Fortaleza e outra em Juazeiro do Norte. Nós fomos ao Let’s Go Bar, conferir um dos shows, que foi cheio de influências do rock nacional e internacional. O repertório foi desde Cazuza e Legião Urbana até Rage Against The Machine, uma banda da Califórnia.

No palco, ele ainda afirmou ter vindo recentemente ao Ceará, mas que infelizmente não deu para tocar. “Estava louco para fazer um show aqui”, disse Tico. Após o show, ele recebeu os fãs no camarim, tirou fotos e ainda dividiu o palco com as duas bandas locais que tocaram na mesma noite.

Tico Santa Cruz

Tico Santa Cruz (Foto: Mayara Kiwi)

Nas redes sociais, o artista comenta: “Voltando pro Rio de Janeiro depois de dois shows maravilhosos no meu amado Nordeste. Obrigado Fortaleza e Juazeiro do Norte.”.

Confira o papo que batemos com o músico:

Você acredita na música como ferramenta transformadora de cenários e espaços?
Tico Santa Cruz: Acredito que a música mexe muito com a sensibilidade das pessoas, ela tem uma carga emocional muito grande com relação ao momento e ao estado de espírito que a pessoa está no momento. Uma música pode atingir você de várias formas diferentes. Eu me lembro muito, que nos anos 90, quando eu era moleque e estava correndo atrás dos meus sonhos, eu ouvia algumas coisas do Charlie Brown Jr e tinham músicas que me incentivavam a querer lutar e seguir acreditando no meu trabalho, mas ao mesmo tempo, ouvia várias músicas do R.E.M, que nos momentos de “bad“, me confortaram e me deram uma sensação de amor, de carinho, de me sentir confortável novamente. Eu vejo que o Detonautas tem essa coisa com os fãs, com as letras e tudo mais, que mexe muito com essa coisa da transformação da pessoa. Tem muita gente que está passando por um momento difícil e vai encontrar na música um canal, uma ligação pra poder transformar alguma coisa na própria vida.

E sobre os seus projetos atuais?
Tico Santa Cruz: O Detonautas está lançando um disco agora em julho, um disco totalmente inesperado, porque a gente apontou pra um outro lado completamente diferente do que foi o álbum anterior. Paralelo ao Detonautas, eu faço esses shows com bandas locais, onde eu mostro minhas influências, bandas que eu gosto, os artistas que gosto de cantar e misturo com algumas coisas dos Detonautas. Extra isso tudo, tem um livro infantil, que vou lançar esse ano. É a primeira vez que escrevo para crianças. Tenho as atividades relacionadas ao meu ativismo, que eu procuro exercer de maneira bem responsável e bem atuante também. Então são muitas frentes que eu trabalho paralelo ao Detonautas e que eu acho que no final das contas tudo vai se conectar.

Existe uma conexão do seu ativismo com a sua música?
Tico Santa Cruz: Como no Brasil o debate político, ainda é algo muito raso e muito sujo, no sentido de poluído, as pessoas confundem bastante minha posição pessoal com o meu trabalho com a banda, entende?! Meu trabalho com a banda é um trabalho de música, que tem também uma parte política e tudo mais, mas eu não faço do palco um palanque. Meu trabalho como ativista, aí já outra coisa. Como eu sou líder da banda e acaba que a figura do vocalista, de forma equivocada, fica muito ligada com o nome da banda, as pessoas acabam confundindo e criando ou uma simpatia ou uma antipatia por isso. Em um momento de polarização como o que estamos vivendo, isso não é muito bom pra arte, é dever da arte se envolver sim, com questões politicas, sociais, questões que dizem respeito ao que a gente vive no nosso país, porque ela tem essa função também de transformar nesse sentido.

Você veio a Fortaleza no ano passado, debater sobre a juventude negra. Pode contar pra gente um pouco mais sobre isso?
Tico Santa Cruz: Eu vim pra cá falar sobre a juventude negra, foi um evento que eu fui convidado, não pra que eu falasse sobre o exterminio da juventude negra, porque não é o meu lugar de fala. Existem pessoas que vivenciam muito mais isso na pele do que eu. A minha missão era chamar atenção pro assunto, usar um pouco do beneficio da figura publica pra chamar atenção pra uma pauta relevante. Sou branco, uma pessoa de classe média, dificilmente passo por situações como essa, embora eu tenha sido adotado na minha adolescência por uma família negra e tenha vivenciado experiências com eles e principalmente com meu irmão,  já que em todos os lugares que nós íamos, ele era revistado ou era o cara barrado nas portas da boates e das baladas. Pude olhar isso pelo meu ângulo, mas não pelo ângulo de quem é negro e de quem vive na pele, então eu só vim aqui chamar atenção pra esse assunto e acabou que fluiu bem e acho que foi bem positiva a pauta.

Algum recado para Fortaleza?
Tico Santa Cruz: A galera de Fortaleza sempre me recebe muito bem, sempre me sinto muito a vontade aqui. Realmente adoro. Sinto muita saudade de vir aqui todo ano fazer shows e estar junto com o pessoal daqui. E o recado que deixo, é que a galera fique atenta, consciente e que a gente possa de alguma maneira lutar pela nossa democracia e pelo direito de cada um ter sua opinião e acima de tudo, respeitar o posicionamento de cada pessoa e lutar pelo país, porque estamos num ciclo muito perigoso e não é positivo pra ninguém esse momento. Se a gente não se ligar que a coisa é maior do que só essa polarização aí, certamente o Brasil vai ter muita dificuldade pra voltar a um patamar de condições dignas pra pessoas, mesmo que sejam minimas, como estava acontecendo em tempos mais descentes.

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“Eu não faço do palco um palanque”, diz Tico Santa Cruz em sua passagem pelo Ceará.

Por Mayara Kiwi em Diversão e cultura

29 de maio de 2017

O músico e vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, fez uma passagem pelo Ceará, para fazer duas apresentações, uma em Fortaleza e outra em Juazeiro do Norte. Nós fomos ao Let’s Go Bar, conferir um dos shows, que foi cheio de influências do rock nacional e internacional. O repertório foi desde Cazuza e Legião Urbana até Rage Against The Machine, uma banda da Califórnia.

No palco, ele ainda afirmou ter vindo recentemente ao Ceará, mas que infelizmente não deu para tocar. “Estava louco para fazer um show aqui”, disse Tico. Após o show, ele recebeu os fãs no camarim, tirou fotos e ainda dividiu o palco com as duas bandas locais que tocaram na mesma noite.

Tico Santa Cruz

Tico Santa Cruz (Foto: Mayara Kiwi)

Nas redes sociais, o artista comenta: “Voltando pro Rio de Janeiro depois de dois shows maravilhosos no meu amado Nordeste. Obrigado Fortaleza e Juazeiro do Norte.”.

Confira o papo que batemos com o músico:

Você acredita na música como ferramenta transformadora de cenários e espaços?
Tico Santa Cruz: Acredito que a música mexe muito com a sensibilidade das pessoas, ela tem uma carga emocional muito grande com relação ao momento e ao estado de espírito que a pessoa está no momento. Uma música pode atingir você de várias formas diferentes. Eu me lembro muito, que nos anos 90, quando eu era moleque e estava correndo atrás dos meus sonhos, eu ouvia algumas coisas do Charlie Brown Jr e tinham músicas que me incentivavam a querer lutar e seguir acreditando no meu trabalho, mas ao mesmo tempo, ouvia várias músicas do R.E.M, que nos momentos de “bad“, me confortaram e me deram uma sensação de amor, de carinho, de me sentir confortável novamente. Eu vejo que o Detonautas tem essa coisa com os fãs, com as letras e tudo mais, que mexe muito com essa coisa da transformação da pessoa. Tem muita gente que está passando por um momento difícil e vai encontrar na música um canal, uma ligação pra poder transformar alguma coisa na própria vida.

E sobre os seus projetos atuais?
Tico Santa Cruz: O Detonautas está lançando um disco agora em julho, um disco totalmente inesperado, porque a gente apontou pra um outro lado completamente diferente do que foi o álbum anterior. Paralelo ao Detonautas, eu faço esses shows com bandas locais, onde eu mostro minhas influências, bandas que eu gosto, os artistas que gosto de cantar e misturo com algumas coisas dos Detonautas. Extra isso tudo, tem um livro infantil, que vou lançar esse ano. É a primeira vez que escrevo para crianças. Tenho as atividades relacionadas ao meu ativismo, que eu procuro exercer de maneira bem responsável e bem atuante também. Então são muitas frentes que eu trabalho paralelo ao Detonautas e que eu acho que no final das contas tudo vai se conectar.

Existe uma conexão do seu ativismo com a sua música?
Tico Santa Cruz: Como no Brasil o debate político, ainda é algo muito raso e muito sujo, no sentido de poluído, as pessoas confundem bastante minha posição pessoal com o meu trabalho com a banda, entende?! Meu trabalho com a banda é um trabalho de música, que tem também uma parte política e tudo mais, mas eu não faço do palco um palanque. Meu trabalho como ativista, aí já outra coisa. Como eu sou líder da banda e acaba que a figura do vocalista, de forma equivocada, fica muito ligada com o nome da banda, as pessoas acabam confundindo e criando ou uma simpatia ou uma antipatia por isso. Em um momento de polarização como o que estamos vivendo, isso não é muito bom pra arte, é dever da arte se envolver sim, com questões politicas, sociais, questões que dizem respeito ao que a gente vive no nosso país, porque ela tem essa função também de transformar nesse sentido.

Você veio a Fortaleza no ano passado, debater sobre a juventude negra. Pode contar pra gente um pouco mais sobre isso?
Tico Santa Cruz: Eu vim pra cá falar sobre a juventude negra, foi um evento que eu fui convidado, não pra que eu falasse sobre o exterminio da juventude negra, porque não é o meu lugar de fala. Existem pessoas que vivenciam muito mais isso na pele do que eu. A minha missão era chamar atenção pro assunto, usar um pouco do beneficio da figura publica pra chamar atenção pra uma pauta relevante. Sou branco, uma pessoa de classe média, dificilmente passo por situações como essa, embora eu tenha sido adotado na minha adolescência por uma família negra e tenha vivenciado experiências com eles e principalmente com meu irmão,  já que em todos os lugares que nós íamos, ele era revistado ou era o cara barrado nas portas da boates e das baladas. Pude olhar isso pelo meu ângulo, mas não pelo ângulo de quem é negro e de quem vive na pele, então eu só vim aqui chamar atenção pra esse assunto e acabou que fluiu bem e acho que foi bem positiva a pauta.

Algum recado para Fortaleza?
Tico Santa Cruz: A galera de Fortaleza sempre me recebe muito bem, sempre me sinto muito a vontade aqui. Realmente adoro. Sinto muita saudade de vir aqui todo ano fazer shows e estar junto com o pessoal daqui. E o recado que deixo, é que a galera fique atenta, consciente e que a gente possa de alguma maneira lutar pela nossa democracia e pelo direito de cada um ter sua opinião e acima de tudo, respeitar o posicionamento de cada pessoa e lutar pelo país, porque estamos num ciclo muito perigoso e não é positivo pra ninguém esse momento. Se a gente não se ligar que a coisa é maior do que só essa polarização aí, certamente o Brasil vai ter muita dificuldade pra voltar a um patamar de condições dignas pra pessoas, mesmo que sejam minimas, como estava acontecendo em tempos mais descentes.